A chuva lavou a alma do rock no SWU

Chuva. Era para isto que todos estávamos preparados. Desde quase uma semana antes, se falava que iria cair muita chuva em Paulínia naquele dia 14, terceiro, último e, de longe, melhor dia do festival SWU.

Mas, além da chuva, todos estava preparados para grandes show, ou de grandes bandas dos anos 90, ou de bandas novas de grandes músicos dos anos 90. E, como não escondo de ninguém que sou uma viúva dos 90, o dia estava para mim.

Na chegada nem estava chovendo muito, então posso dizer que aí fomos surpreendidos novamente! O lugar era de fácil acesso, a entrada foi tranquila, o local amplo e bem distribuído, as filas para banheiro e comida dentro do aceitável, shows do horário, som impecável e o local dos palcos principais era asfaltado, evitando um Barrostock.

Cheguei no final do show do Raimundos, então não tive parâmetro algum para avaliar, então vamos pular diretamente para o Duff McKagan’s Loaded. Apesar de muita gente não esperar nada do show, eu tinha certeza que seria muito bom, pois ouvi muito o novo material, The Taking, responsável por cinco canções do curto show. Certo, você pode não conhecer muito sobre a banda, mas o cara que estava no palco, cantando, é nada mais que um dos integrantes do Guns n Roses, que inspirou a cerveja Duff, de um desenho animado aí e que não tem pâncreas, mas tem competência e carisma de sobre. Foi um show empolgante, com ele jogando para a galera, ao terminar com uma cover do Misfits e três do Guns e saiu do palco com o dever cumprido. Garanto que muita gente saiu de lá pronto para baixar as músicas da banda.

Após, fomos ver o show do Black Rebel Motorcycle Club. Bem, ver é força de expressão, ficamos próximo do palco, de onde dava para ver e ouvir, mas nada que empolgasse muito. Eles têm competência, mas falta muito, mais muito carisma. Eu não tenho paciência para banda que sobe ao palco com ar blasé, como o público tivesse que agradecê-los por terem feito o esforço de estarem lá, como se fosse uma honra vê-los. Na boa? Vão tomar no cu todas as bandas assim. Lixo.

Próximo, Down. Qualquer coisa que o maluco do Phil Anselmo faça parte, vale a pena acompanhar. E durante quase uma hora de brutalidade musical, numa apresentação que nos deixou cansado só de assistir, Phil e sua banda de americanos sulistas criados com muito bacon e cerveja puseram o SWU para pular. A palavra correta para definir o show é uma só: brutal! Nunca vi um show como esse. E no final, depois de tocar os riffs iniciais de Walk, Phil Anselmo doidão chamou o Duff para o palco, para uma jam que terminou o show. Pronto, estou cansado só de lembrar.

Começava agora o descanso e a preparação para o que o festival tinha de melhor. Primeiro tocaram o 311, um sonzinho mezzo praiano, mezzo skatista, com a batida fórmula de dois vocais, um melódico e outro gritado. Contemporâneos de Sugar Ray e Smashmouth, fazem o mesmo estilo de som. Então foi a hora de dar uma volta, conhecer o locar e comer alguma coisa, mas que algumas pessoas chamaram de show do Sonic Youth. O meu único arrependimento foi não ter atrasado um pouco a minha volta, pois fui obrigado a ouvir 10 minutos da microfonia que eles chamam de música. E, para completar o intervalo, Primus. Vendo o show eu me pergunto: de que adianta o Les Claypool destruir o baixo como destrói para fazer uma música chata daquela? Talento desperdiçado.

E pronto, agora o SWU iria começar propriamente dito. E, para ficar mais completo, a chuva que tinha dado um tempo voltou com gosto, e só fez aumentar até o fim da noite. Primeira parada: Megadeth. Com um Dave Mustaine extremamente bem humorado (juro que o vi sorrindo uma hora), começou um desfile dos riffs de metais mais fodidos de todos os tempos. É incrível como o cara tem as manhas de fazer riffs destruidores e fodões. Show perfeito, com os hits mais importantes da carreira e com o público na mão.

No próximo, Stone Temple Pilots. O que dizer de uma banda que tem a quantidade de hits que eles têm? (se você não conhece as músicas deles, fez bem de não ter ido ao SWU, seu lugar é em algum barzinho pop-rock da Vila Olímpia). Interstate Love Song, Big Bang Baby, Sex Type Thing, Trippin’ on a Hole in a Paper Heart e é claro, Plush, sem dúvida nenhuma a música que mais tocou nas rádios de todas as bandas presentes naquele dia. O único problema é que ou o Scott Weiland parecia estar daquela forma que ele passou a maior parte dos dias dele ou então realmente ficou lesado, pois para acompanhá-lo, a banda diminuiu a velocidade de todas as músicas, fazendo o som ficar meio arrastado. Mas, além de não ter sido um show ruim (o do ano passado no Via Funchal foi melhor), é um milagre o Scott ainda estar vivo, pois o seu destino já era para ter sido o mesmo de seu contemporâneo…

…Laney Staley, do Alice in Chains, a próxima banda a tocar. Depois de muito tempo, eles recrutaram um novo vocalista, William DuVall. Se alguém pegasse uma máquina do tempo 10 anos atrás para assistir a um show deles iria ter um choque pois, no lugar do loiro e mirrado Laney, estava no palco um negro gigante com cabelo black power. Mas, sério, se você fechasse os olhos e apenas ouvisse, não perceberia nada. A voz do DuVall é muito próxima do tom do Staley, o que não é algo ruim, muito pelo contrário. Cantou os hits antigos e as (ótimas) novas com competências e, além disso, sabe agitar a galera. Mas daí vem neguinho dizendo que não tem como trocar vocalista e tal, e para estes, que não conhecem a banda, a resposta é uma só: a alma do AiC é o guitarrista, compositor e vocalista Jerry Cantrell. E o cara ainda está em plena forma, portanto, show ótimo.

Mais de uma hora da manhã, onze horas depois de termos chegado em Paulínia, completamente ensopados, quebrados e todas as coisas que você pode imaginar, começa uma insanidade que pode ser chamada de rock n roll. Num palco todo branco e cheio de flores, Cacau Ribeiro, um poeta pernambucano, começa a declamar uma poesia e, no meio de um monte de palavrões, chama ao palco a banda, também de branco, que começa a tocar, até o surgimento de um Mike Patton parecendo um pai de santo. O que se viu daí em diante foi a coisa mais insana que eu já vi num palco, e olha que já assisti muitos show na vida. A banda é extremamente precisa, os hits são infinitos e o Mike, bem, ele levou a interação em português entre banda/público a um novo nível, que duvido que alguém atinga. Só para exemplificar, ele cantou uma versão todinha em português de Evidence. Precisa dizer algo mais?

Difícil dizer, mas os 3 momentos que ficarão marcados do show foram:

– Epic, que foi um dos primeiros clipes (e um dos que mais vezes vi) que assisti na vida, já que foi lançado. Quem diria que, vinte anos depois, eu teria a chance de ouvi-la ao vivo.  Só quem passou por isso, quem esperou vinte anos para ouvir uma das suas músicas preferidas ao vivo, sabe o que eu quero dizer.

– Digging the Grave, na pogada coletiva do Bresser, tirando forças ninguém sabe de onde.

– “vocês são do caralho! E o Palmeiras também”

É, o rock n roll e a chuva lavaram a minha alma. Que venha o próximo.

Leave a Reply