Crowdfunding e Palmeiras: uma boa ideia mal aplicada

Para quem acompanha futebol, uma das notícias mais comentadas durante esta semana foi o pedido de dinheiro da diretoria do Palmeiras para a compra do jogador Wesley. Mas, espera aí, como ‘pedir dinheiro’? É tipo uma doação? Bem, é mais ou menos isto, mas é um pouco mais complexo que isto, é uma coisa chamada crowdfunding.

E o que é este tal crowdfunding? É uma vaquinha? Vamos dizer que o princípio é o mesmo. Segundo o site http://www.crowdfundingbr.com.br, criado para falar sobre o assunto  “é o termo para usar quandoa gente fala de iniciativas de financiamento colaborativas. Traduzindo para o português seria algo como ‘financiamento pela multidão’. A ideia é que várias pessoas contribuam, com pequenas quantias, de maneira colaborativa, a viabilizar uma ideia, um negócio, um projeto.”

Mas isto é comum? Sim, é muito comum, principalmente no meio artístico, onde se utilizam o crowdfunding para se fazer um album, um livro, um filme, uma peça de teatro, um show, entre outros.  A pessoa interessada tem toda a ideia e a capacidade mas não tem dinheiro necessário e, desta forma, lança mão deste artifício para pedir doações para o projeto, em troca de uma contrapartida, que normalmente tem mais valor de agradecimento e reconhecimento de outra coisa (créditos na obra, uma cópia do material, um poster de divulgação).

Em outras áreas, o Ônibus Hacker saiu do papel no final do ano passado com R$ 40 mil obtidos através do crowdfunding, onde pessoas que compartilhavam da cultura hacker doavam dinheiro para a iniciativa. Eu mesmo participei uma vez de um, quando o Paulo lançou uma campanha para obter dinheiro para a gravação de uma série via web. Infelizmente ele não conseguiu o necessário e, nestes casos o dinheiro é devolvido.

Desta forma, dá para perceber que muito ao contrário do que muita gente fala, isto não é passar o pires pedindo doações, e sim a utilização de um novo conceito de financiamento permitido pelo advento das mídias sociais e pela aproximação de pessoas afins. Neste ponto falta as pessoas buscarem um pouco mais de informação antes de criticar.

Porém, a ideia, por melhor que seja, foi mal aplicada, por duas razões: uma estratégica e outra técnica.

A estratégica foi a forma que a iniciativa foi lançada, de sopetão, e utilizando-se de um jogador que, além de teoricamente já contratado (que até está treinando), com pouco poder de mídia. Caso o ideia tivesse sido lançada para, por exemplo, levantar dinheiro para a contratação do Alex, que está na Turquia, na próxima janela, ela seria muito interessante, pois é um assunto novo e que ainda não houve tentativa de contratação. Desta forma, a diretoria faria uma consulta pelo preço dele, digamos, 10 milhões de reais, e assim lançaria uma campanha para a obtenção deste dinheiro até junho. Da forma que foi, pareceu uma solução desesperada para se livrar de um problema, dando motivos para crítica da imprensa, que já não tem nenhuma boa vontade com o Palmeiras.

E tecnicamente, houve falha da divulgação oficial por parte do Palmeiras, que em nenhum momento deixou claro se tratar de um crowdfunding (se o povo não conhece, deveria ter explicado então o que é), não falou no site sobre as contrapartidas (deixando margem para dúvidas e críticas sobre a ferramente) e, pior de tudo, instituiu cotas fixas e de alto valor. Este erro é enorme e vai ser o responsável pelo possível fracasso da ideia, pois elitiza os doadores. O certo seria, como funciona em todos os outros, deixar livre o valor da doação, e criar faixas para as contrapartidas. Como se diz na internet, é mais fácil vender um milhão de produtos a um real do que vender um produto de um milhão de reais.

Então, que fique a lição. Não basta uma boa ideia, é preciso trabalhar ela e, no caso de algo inovador, explicar muito bem, para não dar margem aos críticos de plantão.

Comentários

  1. Luiz Piacezzi março 2, 2012 at 2:04 am

    Excelente o post. Bem escrito, detalhado e nos passa a dimensão da da administração palestrina.

  2. Pedro Guilherme Lemes março 2, 2012 at 12:41 pm

    Uma coisa que me deixa com a pulga atrás da orelha com esse sistema é o seguinte. Suponha que a massa palmeirense consiga reunir o dinheiro e contrate o jogador, pagando os 10% pro site (que é mta grana). E 6 meses depois na janela de transferência européia o Palmeiras receba uma proposta irrecusável pelo atleta…como que fica a cara das pessoas que doaram? Pra quem vai o dinheiro? Pro clube? Blz, mas vão trazer outro nome a altura? Dificilmente…

  3. Hiran março 2, 2012 at 12:46 pm

    Isto realmente não dá pra garantir nada. Ficaremos na mão do bom senso e da boa vontade da diretoria, o que, cá entre nós, me dá medo

  4. Eduardo março 2, 2012 at 5:18 pm

    Acho que pro futebol daria mais certo criar algo tipo um gigantesco grupo de investimento onde cada um compraria uma cota do jogador e depois teria direito de opinar, e depois o dinheiro recebido numa venda poderia servir para comprar outro. Isso sim seria bom o problema é administrar isso. Na parte burocrática.

    O Texto está ótimo me esclareceu muitas dúvidas. Parabéns.

  5. Daniel Bregadioli março 2, 2012 at 11:18 pm

    Excelente texto, muito bem escrito.

  6. Alexandre Borges março 3, 2012 at 9:14 am

    Gostei do texto… Mas a hipotética idéia dada aqui, no caso da contratação do Alex, pode não dar tanto certa pois iria abrir muito fortemente a intenção de contratação (tá certo que no caso Alex essa intenção já é bem expeculada, mas mesmo assim), atraindo a atenção de outros times que podem furar mais uma vez e contratar. Apesar de nesse caso do Wesley ter sido mal trabalhado externamente, para o público, foi bem trabalhado internamente, já que já está fechado que o clube só negociará com o Palmeiras até a data limite, impedindo que alguém entre na parada e mais uma vez de o balão no Palmeiras.

  7. Marcio março 4, 2012 at 11:35 am

    Otimo texto, e tbem concordo sobre a elitizacao da campanha, o que comprova que nossos dirigentes nao pensam no torcedor nem quando precisam dele p/ arrecadar fundos .

  8. Leonardo Lourenço março 6, 2012 at 5:46 pm

    Na minha opinião é sim uma tática “pires na mão”, pouco importando o fato de que o apelo se dirige ao público de outra forma.
    Não tem cabimento um clube do porte do Palmeiras pedir dinheiro ao torcedor, o que aí sim é bem diferente de uma campanha para que um artista independente lance seu disco, por exemplo.
    Ridículo do começo ao fim esse crowdfunding palmeirense.

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