O que as startups podem aprender com as bandas de rock?

bandas-de-garagem

Praticamente todo o tempo entre os meus 20 e os 30 e alguns anos eu toquei em uma banda. A gente ensaiava, se divertida, mas o objetivo principal sempre foi tocar ao vivo, e pra muita gente. Todo nosso esforço era voltado pra isso, para apresentar o som para a maior quantidade de gente possível e para que estes se tornassem nossos fãs. O resto era consequência.

Porém, com o tempo, começou a surgir uma geração que tinha como objetivo principal gravar uma demo e assinar com uma gravadora. Não era mais importante compor boas músicas, criar uma base sólida de fãs e se divertir, o que tinha valor era assinar com uma gravadora, ter um selo ou alguma coisa que chancelasse e bancasse a banda. Conquistar fãs era um passo seguinte, quase que como uma “consequência natural” de ter um investimento por trás.

O que aconteceu? Um monte de banda meia boca lançou um álbum, fez uns shows bancados pela gravadora e sumiu, enquanto algumas boas bandas continuaram na estrada, fazendo seus shows e vendendo seus materiais, devagar e sempre.

Mas o que isso tem a ver com as startups? Tudo! No ecossistema de startups está acontecendo exatamente a mesma coisa que aconteceu na cena musical, só um pouco mais rápido.

A primeira leva das startups surgiram com base numa ideologia, em um desejo de conquistar independência profissional e financeira, em ter um sonho e transformar isso em uma empresa. Porém, nada muito diferente do que vem sendo feito há décadas na indústria e no comércio, mas com empresas digitais, com alto risco, escaláveis e essas coisas que conhecemos.

E muitas deram certo, até porque o mercado ainda era novo. Algumas startups saíram do papel, tornaram-se grandes empresas e seus criadores ficaram ricos e famosos. E isso atraiu muita gente.

Daí começa uma segunda leva, com muita gente boa, mas muitos aventureiros, em busca do sucesso rápido, da fortuna e da fama. E igual às bandas que conheci, não querem ter paciência para conquistar clientes-fãs aos poucos, com base no seu trabalho e com isso crescerem e conquistarem o dinheiro que lhes é merecido.

Não, eles não querem isso porque dá muito trabalho. Eles querem pular etapas e, de um modelo de negócios querem passar para o investidor. E da mesma forma que muitas bandas alegavam que precisavam de uma gravadora para conquistarem fãs, startups passaram a demandar por investidores para só então conquistarem clientes.

Desenvolver o modelo de negócio, investir o seu tempo e o seu dinheiro, valorizar cada cliente e encantá-lo, criar uma base sólida para a startup e caminhar um passo depois do outro passou a ser algo antigo, defasado, retrógrado. O que funciona agora é ter um modelo de negócio, montar um protótipo legal, preparar um pitch bacana e correr atrás do investidor. Só!

Nisto, estas startups se enganam, e muito. Salvo raríssimas exceções, as bases teóricas podem ter evoluído, mas a forma como o mercado se porta não muda. Dar uma fábula nas mãos de empreendedores despreparados, sem clientes e deslumbrados é a mesma coisa que dar um contrato bom pra uma banda fraca: permite uma sobrevida mas a queda será muito maior, e mais doída.

Não quero dizer que todas as novas startups são assim, mas já participei de eventos o suficiente para perceber que cada vez mais ideias são calçadas na premissa do investimento ou nada, numa busca míope pelo fim sem se preocupar como chegar lá e o aprendizado que isso gera. Com a diferença que o mercado financeiro é muito mais inteligente e preparado que a indústria fonográfica, ou seja, a estrada para o investimento é muito mais árdua e sinuosa que a da assinatura com uma gravadora. E muita gente vai ficar pelo caminho sem nem ter começado a jornada de verdade.

Leave a Reply