Quem matou a MTV Brasil?

Durante a última semana, na reformulação da Abril, uma das decisões foi a descontinuação do canal MTV Brasil, que causou um misto de indignação com “mas a MTV ainda existe?”.

Para entender a importância do canal é preciso regredir uns 15 anos no passado (pelo menos pra mim, pois em SBO a MTV só pegava na TV por assinatura) e ver o seu papel na formação musical de toda uma geração. Ela deu “cara” às músicas que ouvíamos, pois antes o máximo que a gente tinha era um ou outro programa semanal de clipes, que não dava nem para o gostinho, e as vezes um um lançamento de clipe no Fantástico (sim, acontecia).

A MTV foi, por muito tempo, o canal que ficava ligado em casa. Eu chegava, ligava a tv e ia fazer as coisas. Sempre que começava a tocar alguma coisa legal, eu parava para ver e ouvir, mas no geral era a trilha sonora de casa. E aposto aqui que eu não era o único a fazer isso.

Não só isso, quantas vezes eu peguei uma fita VHS e deixei gravando a noite toda, para no dia seguinte corrê-la e assistir aos clipes mais legais.

Várias fases se passaram, a “qualidade” (ao menos para o meu gosto) diminuiu, mas eu continuava parte da audiência. Mas os tempos mudaram.

Chegou a internet com banda larga e com ela o YouTube. De repente a gente começou a perceber que não precisava ficar o dia em frente da tv ou mesmo gravando a programação da madrugada para ver seu clipe favorito, era só digitar algumas palavras e pronto! Lá estava o clipe desejado, ou aquela versão ao vivo do show desse ano, ou do show de 10 anos atrás.

E a MTV percebeu isso. Alguns anos atrás um diretor dela, que não lembro o nome, disse isso, ao praticamente limar a música da sua programação. Na época eu não gostei da decisão, mas hoje a entendo, e até concordo. O problema é que o M da MTV vem de “music”, ou seja, era um canal de música. Mesmo os programas que não eram de música propriamente dita, a tinham em seu contexto, como Beavis and Butt-head e seus hilários comentários dos clipes.

A MTV virou um Multishow, porém sem a putaria da madrugada, e apesar da qualidade de alguns programas, não se sustentou por causa desse M. A música está no DNA da emissora, e mudar a sua programação de uma hora para outra não funciona. Ela se achava um canal de jovens e por isso tentou montar uma programação toda voltada para os jovens, porém se esqueceu de dois detalhes:

O primeiro é que a MTV nunca foi um canal para jovens e sim um canal onde a molecada via e ouvia música. Assim, quando a música parou de passar, as pessoas pararam de assistir.

O segundo é que ela não conseguiu, apesar de tentar, acompanhar a tecnologia. Honestamente, eu acho que nem conseguiria, pois a indústria musical foi uma das mais afetadas pela revolução digital: assim como as mídias físicas desaparecem com o MP3, as pessoas querem ver música “on demand”. Não há mais nenhum significado ver horas e horas de tv esperando para ver um clipe, nenhum.

O que matou a MTV? Bem, o conceito MTV foi dizimado pelo YouTube (não a ferramenta, mas a ideia) e a possibilidade de ver vídeos “on demand”. A programação atual da MTV poderia até sobreviver, mas com outro nome. Se a Abril quer salvar a programação, abdique da marca MTV, hoje ela é mais prejudicial do que outra coisa.

A MTV está morta, que descanse em paz e muito obrigado por tudo.

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