“Vovô, por que você não gosta de futebol?”

– Vovô, posso te perguntar uma coisa?

– Claro, o que?

– Por que você não gosta de futebol?

– Quem disse que eu não gosto de futebol?

– É que eu nunca te vi assistindo nenhum jogo no televisor e nunca levou a gente no estádio.

– Impressão sua, eu gosto sim.

– Gosta não, os outros avôs sempre acompanham com os seus netos.

– Mas todo mundo gosta de futebol. Mês passado mesmo a gente viu a final da Copa de 58.

– Daí não conta, todo mundo assistiu, né? Afinal, foi a comemoração de 100 anos do nosso primeiro título. E pela primeira vez desde aquela final de 22 que a gente teve chance de ganhar uma.

– Verdade, eu lembro de 22. Pena que o Neymar pipocou de novo.

– Quem é Neymar?

– É um cara que todo mundo achou que ia virar um craque, mas que não foi pra frente. Daí pra frente, você sabe a história.

– É, vô. Eu li que a gente já foi o melhor do mundo no futebol. Deve ter sido boa aquela época. Você viu o Brasil ser campeão mundial, né?

– Vi, duas vezes. em 1994 e em 02. Bons tempos.

– Mas tá, vô, não me enrola, por que você não gosta de futebol?

– Tá, tá bom. Não é que eu não gosto de futebol, é que eu me desiludi.

– Como assim?

– Senta aqui, vou contar uma história. Há muito tempo atrás, quando nem o seu pai era nascido, eu era apaixonado por futebol. Assistia todos os jogos, ia ao estádio, comemorava as vitórias, ficava de mau humor quando perdia, pode perguntar para sua avó como eu era. Eu era apaixonado por um time, tinha camisas, jaquetas, posters, um monte de coisas. Era até mais torcedor do que você é hoje.

– Jura vô? Mas o que aconteceu?

– Então, nessa época a gente jogava na grama de verdade ainda, e quem arbitrava era uma pessoa, chamada juiz, que ficava no campo e decidia o que era falta, o que não era…

– Uma pessoa? Como assim? Não havia o grande computador?

– Não de jeito nenhum. Era uma pessoa, e ela cometia um monte de cagada… desculpa amor…. um monte de erros. Muitos jogos eram decididos em erros desse juiz. Então, o que eu estava contando? Ah sim, então, eu acompanhava sempre. Só que o time era complicado, na época o futebol era amador, eles não tinham donos, tinham presidentes eleitos pelos sócios e pelos torcedores, e por causa disso havia muita briga e muitos interesses. E os caras que comandavam esse time faziam besteira atrás de besteira, roubo atrás de roubo. Eles diziam que torciam pelo time e que faziam o melhor por ele, mas era uma grande mentira, eles só se interessavam pelos seus próprios interesses. Roubavam o clube, usavam ele para obter vantagens. E eram todos assim, quase sem exceção, que estava dentro queria roubar, quem estava fora queria entrar para pegar a sua parte. Uma vez ou outra entrava um cara bem intencionado, mas ele era massacrados pelos interesseiros.

– Sério, vô?

– Isso. O ego e os interesses particulares eram maiores que o time, e com o tempo o time foi decaído. Primeiro parou de disputar títulos, depois passou a ser rebaixado, depois passou a não conseguir mais voltar para a primeira divisão. E com isso a briga aumentava, porque os caras estavam matando a galinha dos ovos de ouro e não percebiam, só sabiam acusar uns aos outros. Com isso, os torcedores sérios acabaram desistindo, desanimados, sobrando apenas aqueles que queriam se aproveitar dele. Os verdadeiros torcedores não conseguiam mais passar a paixão para seus filhos, ou pelas crianças não quererem ser motivos de piada ou por não quererem para seus filhos o sofrimento que eles passavam. E o tempo passou, passou, até que chegou um dia em que o time faliu. Tinha muitas dívidas, não conseguia pagar e não tinha mais torcedores. Quando isso aconteceu, eu desanimei de vez e jurei pra mim mesmo que nunca mais veria um jogo de futebol na vida.

– Nossa vô, e quando foi isso?

– Faz uns vinte e poucos anos. Até levei seu pai em alguns jogos, mas ele nunca se empolgou.

– Que história triste. Mas como se chamava esse time?

– Palmeiras, meu querido. Sociedade Esportiva Palmeiras.

(cabe a nós não deixar que essa história se torne realidade. Mas cabe mais ainda aos que lá estão e aos que lá querem estar esse papel. E que provem que eu estou errado)

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